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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Cristina Catana
Graça Mesquita
Ricardo Pestana
Rosário Alonso

Súmario

Editorial - 3
Eutanásia, Eufemismo e Compaixão - 4
Lombociatalgia: a evolução para Dor Neuropática I - Os mecanismos e sua Abordagem Clínica - 6
Dor Crónica e Utilização de Opióides nos Cuidados Primários - 13
Atividade de uma Unidade Multidisciplinar de Dor em Contexto de Internamento - Realidade do Hospital de Santa Maria, CHLN - 19
O papel dos Receptores do Glutamato na Génese da Dor Crónica - 22
Poderão as Bombas Infusoras de Substâncias Analgésicas ser fonte de Infecções Nosocomiais? - 30

Editorial - Sílvia Vaz Serra

Olá.
Um artigo de opinião sobre um tema pertinente e muito atual – eutanásia – inaugura este volume e abre caminho a uma reflexão (desejável), que deverá ser profunda e esclarecedora.
Num artigo «intimista», os colegas de um grande hospital relatam a sua vivência e experiência em lidar com o controlo da dor dos doentes, em contexto de internamento. Ao abrirem as portas a todos os que nos leem, permitem que o caminho que traçam em termos organizativos e opções terapêuticas seguidas possa ser objeto de profícua discussão construtiva, tendo como fim último o melhor tratamento do doente com dor crónica.
Segue-se um estudo de revisão onde é resumida e discutida a evidência científica existente sobre o papel dos recetores do glutamato na génese e na manutenção da dor crónica. A complexidade da matiz neuronal da dor, da distribuição dos recetores do glutamato e das diferentes ações que estes exercem na dor, podendo facilitar ou inibir a sua transmissão dependendo do local onde se encontram, é notável e dificulta a compreensão da fisiopatologia da dor crónica. Salienta-se que, apesar dos enormes avanços observados neste capítulo, pouco se tem alterado em termos de novas moléculas disponíveis para o tratamento da dor crónica. Mantêm-se a pertinência do tratamento da dor aguda como forma de evitar a neuroplasticidade cerebral e a consequente cronificação da dor.
O artigo seguinte é um estudo observacional, transversal e analítico, e tem como objetivo caracterizar o tratamento da dor crónica nos cuidados de saúde primários. Os autores pretendem avaliar a prescrição de opióides, conhecer os motivos para a sua não utilização e verificar a existência de relação entre a sua prescrição e sexo, idade, categoria profissional e existência de formação em dor. É essencial e urgente, cada vez mais, a análise crítica da utilização de opióides fortes em dor crónica não oncológica, e deste texto ressalta (entre outras) a importância e pertinência da formação pré e pós-graduada. Ressalta ainda a relevância da educação e ca- pacitação dos doentes, cuidadores e populaçãoem geral para a abordagem da dor crónica, através de campanhas de informação e sensibilização. O conhecimento como pedra basilar da boa atuação terapêutica.
O texto que se segue aborda uma entidade clínica por demais discutida e analisada, mas nunca o suficiente. O objetivo primordial deste artigo é tentar diferenciar a dor neuropática da «dor ciática pura». Esta diferenciação é de ex- trema importância, sendo a avaliação clínica cuidadosa destes doentes a pedra basilar. Desta avaliação clínica resulta a conduta terapêutica adequada e o correto impacto na incapacidade para o trabalho. Apesar da evolução dos exames complementares de diagnóstico (de imagem e/ou de alta resolução), estes mantêm um papel limitado na determinação da presença de dor neuropática. Os novos mecanismos neuroinflamatórios postulados em vários artigos científicos da década atual melhoraram a compreensão das vias de dor a nível do tecido neuronal, propiciando também novas perspetivas de tratamento farmacológico.
No texto que encerra este volume, aborda-se um tema de preocupação crescente – as infecções nosocomiais – não só pelo importante contributo na morbilidade e mortalidade hospitalares, mas também pelo elevado impacto económico e social. Neste contexto, a contaminação de objetos e dispositivos médicos por flora bacteriana pode desempenhar um papel crucial. Para avaliar a eficácia do protocolo de descontaminação utilizado num grande hospital central, os autores avaliaram prospetivamente a contaminação bac- teriana de bombas infusoras de substâncias analgésicas (PCA) da unidade de dor aguda (UDA). Uma importante chamada de atenção.
Termino com um breve texto do Alexandre O'Neill:
«Da folha de papel, amarfanhada, a mosca sobe aos montes,
desce aos vales,
evola-se.
A mão, armada, recomeça a planar sobre outra folha, lisa, de papel.»