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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Cristina Catana
Graça Mesquita
Ricardo Pestana
Rosário Alonso

Súmario

Editorial
Dor e Psiquiatria e Saúde Mental 3
A Dor no Parto e a Vinculação Materna. Perspetivas sobre uma Nova Abordagem Psicológica 4
Modelo de Acompanhamento Psicoterapêutico Eclético em Doente com Dor: um Caso Clínico 9
Interação Psicológica, Social e Cultural na Perceção da Dor: Uma Reflexão sobre a Experiência Psicoterapêutica na Unidade de Dor do Hospital Garcia de Orta 13
Experiência de Tratar Pessoas com Dor Crónica. De Surpresa em Surpresa 17
Dor Crónica e Psiquiatria: um Modelo de Ligação 20
Abordagem da Dor no Âmbito de Psico-Oncologia 25
Avaliação dos Níveis de Ansiedade e Depressão e a sua Correlação com a Intensidade de Dor em Doentes Oncológicos com Doença Avançada e Progressiva 32
Aqui na Dor, Aquém do Prazer 38

Editorial - Sílvia Vaz Serra

A dor é um fenómeno percetivo complexo, subjetivo e multidimensional. A dor implica o Homem na sua totalidade, não é só um acontecimento fisiológico, é uma experiência existencial. A dor não é só sofrimento do próprio, mas também sofrimento dos próximos.
A dor crónica é um problema importante em saúde pública pela sua prevalência, pela incapacidade e sofrimento que condiciona, e pelos seus custos diretos e indiretos.
A psiquiatria e saúde mental é um parceiro importante no estudo, compreensão e tratamento dos doentes com dor, principalmente dor crónica.
A proposta da Dra. Sílvia Vaz Serra de organizar um número temático da revista «Dor» da APED foi um desafio que aceitei com gosto.
Fiz um primeiro esboço com o meu companheiro nesta viagem da dor, Prof. António Barbosa. Contactei muitos dos serviços de psiquiatria e saúde mental que colaboram nas unidades de dor. Não foi fácil encontrar trabalhos de investigação disponíveis para publicar. Alguns autores potenciais não tinham disponibilidade a curto prazo. Optei por solicitar também artigos de opinião.
O artigo do Dr. J. M. Costa Martins sobre a dor no parto e a vinculação materna é baseado numa investigação mais ampla que tem vindo a desenvolver. A teoria da vinculação, de Bowlby e sucessores, apresenta uma compreensão nova da génese do laço fundamental que faz com que um bebé se vincule aos que o criam. O motor essencial desta construção é a satisfação da necessidade inata de proximidade (em relação às figuras que o protegem) e o sentimento de segurança gerado por esta proximidade. A vinculação constrói-se na interação entre as necessidades inatas da criança e as reações do meio que a envolve. Produz um sistema de representações ativas ao longo de toda a vida, que organiza a perceção do mundo quando o indivíduo está numa situação de vulnerabilidade ou de aflição. O Dr. Costa Martins encontrou correlações significativas entre vinculação insegura das grávidas e níveis mais elevados de dor, maior consumo de analgésicos e solicitação de analgesia suplementar mais frequente, pelo que defende uma nova perspetiva na abordagem psicológica da gravidez com equipas assistenciais marcadas pela interdisciplinaridade.
As Dras. Maria de Jesus Moura e Rosana Mil homens apresentam uma investigação levada a cabo pela segunda em doentes oncológicos com doença avançada e progressiva. Este estudo, ao encontrar correlações significativas entre intensidade de dor, ansiedade e depressão, dá um contributo à discussão da complexa relação entre ansiedade, depressão e dor.
Os Drs. Adelaide Costa, Ana Margarida Ribeiro, A. Roma Torres e Prof. Rui Coelho permitem-nos olhar para o interior da colaboração entre a psiquiatria e saúde mental e as unidades de dor. Apresentam um estudo que foca a análise sociodemográfica e clínica da população observada na consulta de psiquiatria – dor. A avaliação subjetiva da evolução clínica dos doentes, realizada seis meses após a primeira consulta, indiciou uma melhoria clínica importante (doentes «muito melhorados» em 46% dos casos).
A Dra. Cristina Pires do Vale, psiquiatra com experiência de trabalho num grande hospital oncológico, apresenta uma excelente revisão do tema «Abordagem da dor no âmbito da psico-oncologia».
A Dra. Cristina Caldeira revela o que se passa na intimidade de uma relação psicoterapêutica com uma doente com dor crónica. Descreve o seu modelo de intervenção, ilustrando-o com uma intervenção concreta.
Por fim, os artigos de opinião: os autores escreveram com total liberdade. A Dra. Inês Oliveira escreve um «poema» científico sobre algo que é improvável, a vivência de prazer no corpo com dor. A Dra. Cristina Catana conta-nos um «conto» em que alguém fechado sobre a sua própria dor, excluído, segregado, pode ser ressocializado através de um grupo terapêutico, nomeadamente psicodramático. Eu próprio descrevo como a experiência de tratar pessoas com dor tem sido uma constante surpresa.