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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Cristina Catana
Graça Mesquita
Ricardo Pestana
Rosário Alonso

Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia - 3
  • Editorial - Sílvia Vaz Serra - 5
  • O Trabalhador de Saúde Perante a Dor e os Cuidados Paliativos - João Schwalbach - 7
  • Paternidades na Luta Contra a Dor. 2.ª Parte - Joaquim J. Figueiredo Lima - 13
  • Dor Após Terapia no Cancro de Mama - Ana Agrelo, Manuela Machado, Paula Silva, Susana Pereira, Teresa Dias e Rosa Maria Fragoso - 17
  • Dor na Criança com Paralisia Cerebral - Catarina Matos e Clara Loff - 22
  • Analgesia de Trabalho de Parto em Parturientes com Tatuagem na Linha Média da Região Lombar - Bárbara Ribeiro, Maria Rodrigues, Alejandro Martin, Raquel Louzada, Lisbete Cordeiro, Irene Ferreira e João Silva Duarte - 30
  • Plano Estratégico Nacional de Prevenção e Controlo da Dor (PENPCDor) - 34

Editorial - Sílvia Vaz Serra

Apesar de este ser o último volume do ano de 2013, é simultaneamente um número que começa a ser desenhado (ainda que tenuemente, sempre os limites do tempo e dos compromissos…) por uma nova equipa.

É o local e o momento certo para fazer um balanço do que foi alcançado, e agradecer a todos os que comigo colaboraram e limaram as minhas imperfeições e incapacidades, e pedir tolerância por tudo o possa ter corrido menos bem. O meu sincero obrigado a todos – sem todos, nada teria sido podido ser feito! Desejo a todos os que abandonaram esta equipa, por motivos profissionais ou pessoais, muito sucesso (sei que vão ter) nos novos desafios. Foi bom trabalhar convosco.

Reconheço que, ao longo deste percurso, houve momentos de algum desânimo e frustração, de luta permanente (nem sempre vitoriosa) com os prazos, mas também posso afirmar que foi uma atividade que pessoalmente me enriqueceu, e penso que desta simbiose resultou e transpareceu um trabalho de equipa honesto, sério, que pugnou sempre pela qualidade e rigor dos textos publicados.

Tentou integrar-se o conceito de dor no seu sentido mais amplo e abrangente, e daí a revista não ter ficado refém de uma ou duas especialidades, de uma ou duas cambiantes da dor mas, antes pelo contrário, aberta a todas as abordagens e visões da dor. Espero que tenhamos ido ao encontro do que os leitores de uma revista científica sobre dor pretendem. Pode fazer-se mais e melhor, e essa sensação de constante insatisfação irá acompanhar-me, sempre… Ter-me-á faltado um golpe de asa, como dizia o poeta…

Mas, teremos oportunidade de continuar a fazer mais e melhor, graças à vossa renovada confiança. É reconfortante o vosso apoio e dá- -nos ânimo para enfrentar estes momentos difíceis que se avizinham. Será uma revista diferente, claro, porque a equipa foi parcialmente renovada e ampliada. A mudança é salutar – pretende ser sempre uma lufada de ar fresco (por princípio…).

O contributo da visão de novas e diferentes áreas científicas só poderá ser uma mais-valia – alto valor transacionável (reconhecem a linguagem económica que nos entra, literalmente, pela porta dentro?). Obrigado por terem acedido a este convite para mais trabalho e superação. Todas as sugestões e ideias são bem- -vindas. A revista será o espelho daquilo que pretenderemos transmitir – sem cosmética, botox, lifting…: textos enfermos de rigor, inovação, desafio, objetividade e espírito científico.

A este propósito, veio-me à memória, em tom musical, aquele poema de Sérgio Godinho («O primeiro dia») de que transcrevo uma estrofe: «… Enfim duma escolha faz-se um desafio Enfrenta-se a vida de fio a pavio Navega-se sem mar, sem vela ou navio Bebe-se a coragem até de um copo vazio E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.» E retomamos a vida, cheios de energia e vontade de ir mais além… Com um texto que menciona uma palavra, uma forma de vida – ética – por vezes tão deturpada e esquecida. Vale a pena pensar nisso!

A presença de dor na criança com paralisia cerebral não é ainda suficientemente conhecida entre os profissionais de saúde. Os compromissos motor e/ou cognitivo associados dificultam a sua comunicação e o seu reconhecimento. Algumas colegas tiveram a ousadia de se debruçarem, de tornarem visível este grupo cinzento e esquecido – a diferença não pode ser sinónimo de sofrimento. Este artigo é uma chamada de atenção, um alerta para que se cambie de cor.

O cancro de mama é o tumor mais frequente no sexo feminino. Cerca de 70% das doentes com cancro de mama, em alguma fase da sua doença oncológica, apresentam dor. Esta pode ser consequência, não só da doença, mas também dos tratamentos. Neste artigo, abordam-se os quadros dolorosos mais frequentes e salienta- -se a importância da multidisciplinaridade, da definição de estratégias de abordagem individuais, da identificação de fatores de risco, do diagnóstico precoce e/ou do tratamento dos diferentes quadros álgicos, sempre com o intuito de potenciar a qualidade de vida das doentes – essencial em oncologia e em todas as situações que cursam com dor.

Definitivamente, as tatuagens – arte decorativa do corpo – fazem parte do nosso dia-a-dia. Ao longo dos últimos anos, tem-se constatado um aumento das solicitações para realização de analgesia epidural em parturientes com tatuagens, na linha média da região lombar. Perante este cenário, muitos anestesiologistas questionam-se sobre a segurança da punção e colocação de cateter epidural nestas regiões tatuadas. Foram estas questões que motivaram um grupo de colegas a efetuar uma excelente revisão, procurando o estado atual da arte, possíveis complicações e medidas adotadas para evitá-las. Curiosos? Remeto- vos para a leitura deste artigo.

O outro artigo que preenche as páginas deste volume aborda a evolução da luta contra a dor. Conclui o autor escrevendo: «Não existe, efetivamente, uma personalidade ou um grupo de personalidades a quem seja, historicamente, credível atribuir a paternidade da luta contra a dor e da “anestesia”. Tudo se integrou no processo evolutivo da humanidade onde alguns tiveram o discernimento e a ousadia de ir produzindo e juntando as peças do “puzzle” que levaram ao estado atual da anestesiologia e da medicina da dor».

E isso mesmo que pretendemos quando lançamos temas, colocamos questões, damos opiniões, tomamos posições (mesmo quando nada dizemos!) – ousar pensar e acrescentar algo de novo… Como diz Gonçalo M. Tavares:«…é fundamental não ter medo nenhum. O que é o erro?... O erro é encontrar alguma coisa, algo que se cruza com o novo, o criativo.»

Bom Natal e desejos de excelente 2014.

Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia

Neste final de novembro de 2013, escrevo-vos a denominada página do presidente!

Presidente reeleito, integrando uma equipa renovada que, com o apoio de todos vós, se propõe continuar e concluir objetivos já iniciados, perspetivar novos rumos, numa sociedade que se pretende pluri e interdisciplinar, com uma participação lata e abrangente de todos os seus membros. Compromisso acrescido pela confiança por vós depositada, pelas expetativas geradas, pelos objetivos fixados. Objetivos que serão a antítese de conformismo ou imobilismo, mas que apenas com a colaboração, participação e empenho de todos serão metas atingíveis.

Tive a grata oportunidade e a honra de integrar, nestes três anos, uma equipa coesa, participativa, com diversidade de pensamentos e opiniões, reflexo de uma multidisciplinaridade, de formação e de conceitos, que com perseverança e tenacidade, procurou refletir os vossos anseios e contribuir para uma maior dinamização e crescimento da APED. Não posso deixar de expressar a todos os membros dos corpos sociais da APED neste triénio, o meu público reconhecimento, em particular aos que por motivos de natureza pessoal, profissional ou estatuária, cessaram as funções que exerceram, não se submetendo por estes motivos ao sufrágio eleitoral.

No balanço das atividades da APED em 2013, destaco o 4.o congresso interdiciplinar da dor que decorreu nos dias 17, 18 e 19 de outubro, no hotel Ipanema Porto. O evento, subordinado ao tema «Esta dor é (in)suportável», esteve integrado nas comemorações da semana europeia de luta contra a dor e do dia nacional de luta contra a dor. Neste congresso, realizado numa conjuntura difícil, cuja organização teve em consideração as múltiplas dificuldades previsíveis, consequentes à situação sócioeconómica e ao desencanto vivenciado neste país, ultrapassou todas as nossas melhores expetativas no número de participantes, na presença da indústria farmacêutica, na sua qualidade científica, que considero de excelência, fruto do elevado nível e craveira dos palestrantes convidados. Estiveram inscritas mais de 350 pessoas, das mais variadas áreas profissionais – investigadores das denominadas ciências básicas, médicos, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, serviço social, entre outras –, o que traduz um enorme interesse pelo estudo e tratamento da dor, não restrito apenas a uma área profissional ou associativa.

Mas, na minha modesta opinião, o acontecimento mais relevante e de importância atual e futura para todos os que se dedicam à medicina da dor, foi a aprovação por despacho de 30-10-2013, do Senhor Diretor-Geral da Saúde do plano estratégico nacional para a prevenção e controlo da dor (PENPCDor), que será de importância capital para os nossos doentes.
A APED participou de forma ativa na sua elaboração (cujo grupo de trabalho foi presi- dido pelo Dr. José Romão), apoia e subscreve o PENPCDor, que atualiza o anterior PNCDor, e persecuta as suas metas e objetivos. O PENPCDor tem em consideração a subjetividade da dor, realça a dor como 5o sinal vital, enfatiza o direito e dever ao controlo da dor e ao seu tratamento diferenciado. Nos seus objetivos, destacam-se a redução da prevalência da dor não controlada na população portuguesa; a melhoria da qualidade de vida dos doentes e a racionalização dos recursos e dos custos necessários para o seu adequado controlo. A dor em grupos específicos (na criança, no idoso e no doente crítico); a prevenção da dor crónica; a revisão e monitorização das orientações técnicas; a melhoria da organização das estruturas diferenciadas para o tratamento da dor e a formação dos profissionais são considerados eixos de intervenção prioritários.

Sugiro-vos a leitura atenta e a divulgação deste documento que representa a continuidade do interesse e sensibilidade das estruturas políticas e governativas na prevenção e no tratamento da dor em Portugal.

2014, um novo ano em que as dificuldades serão mantidas e porventura acrescidas para todos os portugueses, em que a nossa sociedade não será a exceção. Teremos de prosseguir uma gestão rigorosa, integrada num contexto fortemente restritivo, sem descurar jamais os objetivos da APED, consagrados nos seus estatutos (promover o estudo, o ensino e a divulgação dos mecanismos fisiopatológicos, meios de prevenção, diagnóstico e terapêutica da dor).

Por este motivo, entre as diversas atividades que pretendemos promover, a continuação dos debates sobre os temas discutidos no V encontro das unidades de dor e a repetição do Work- shop «Opioides em situações clínicas complexas» serão eventos a perseguir. Os Ws de «Ecografia e dor» e «Tratamento invasivo da dor na patologia do raquis» (este último decorrerá já em janeiro no Porto) continuarão a merecer todo o nosso interesse e efetuaremos um WS monotemático dedicado à «dor neuropática», se possível durante o primeiro semestre de 2014. Propomo-nos dinamizar, de forma pública e inter-pares, com a colaboração e participação de outras sociedades ou organizações, o Global Year Against Orofacial Pain campaign.
Realizaremos em outubro um importante evento em local a definir, integrado na semana europeia/dia nacional de luta contra a dor e comemoraremos em junho, na cidade de Braga, o XXIII aniversário da APED, gerando dois momentos no decorrer do próximo ano, em que o tema DOR será alvo generalizado das atenções dos media, dos decisores e da sociedade civil.
Procuraremos, de forma ativa, manter ou estabelecer novas parcerias para atribuição dos prémios: Vou desenhar a minha dor; Revista dor; Jornalismo/dor; prémio de fotografia «Mova-se contra a dor»,e promoveremos as bolsas de apoio à formação na área da dor, mesmo que estas tenham de ser integralmente suportadas pela APED.

As denominadas novas tecnologias, a que não poderemos estar alheados, merecerão a nossa maior atenção. Dinamizaremos a página do facebook «Mova-se contra a dor» e o portal da APED www.aped-dor.org ou www.aped-dor.com que terá um novo visual, graficamente mais atraente, integrada nas redes sociais, constituindo um meio e local de consulta para os profissionais, com nível e conteúdo científico elevados, com atualizações permanentes e regulares.

A medicina da dor, à semelhança das outras áreas da ciência, tem sofrido avanços insofismáveis e muito significativos, constituindo os grupos de trabalho intituídos ou a instituir no seio da APED, um instrumento importantíssimo de dinamização e atualização, dispondo os seus coordenadores (Intervenção em dor – Ricardo Pestana; Psicologia – Cristina Catana; Avaliar e registar a dor – Henrique Dias; Dor na criança e no adolescente – Amanda Fernandes) de todo o apoio institucional, providos dos meios e recur- sos atualmente possíveis.

Sem promessas fáceis ou estéreis para este ano de 2014 que se avizinha, em que as dificuldades e o conformismo se perpetuam, e o desencanto se magnifica, a APED continuará a empenhar-se de uma forma ativa e continuada para que uma maior acessibilidade e um melhor tratamento da dor não sejam meras figuras de retórica, transvertidas por oráculos em que a crise tudo justifica, numa inércia e letargia que recusamos e pretenderemos ultrapassar.

Votos de um feliz Natal.